TODOS FALAMOS O ÁRABE

Este texto foi escrito especialmente para demonstrar a influência árabe na Língua Portuguesa. Observe que as palavras de origem árabe, que hoje fazem parte da nossa linguagem diária, estão destacadas no texto.

 

A influência de uma língua manifesta-se quando passa a fazer parte do cotidiano das pessoas. Passados mais de mil anos, a língua árabe ainda está presente no dia-a-dia de todos os países do mundo, particularmente entre nós.

As-salamu-alaikum. Essa foi a primeira frase ouvida pelos naturais da América por ocasião do desembarque de Cristóvão Colombo. Significa “a paz esteja convosco” e foi dita por Luís de Torres, um mouro convertido que acompanhou Colombo a pedido dos reis Fernando e Isabel, da Espanha. Os monarcas entendiam que a presença de Torres era necessária porque ele poderia facilitar a comunicação com os habitantes da Índia, já que muitos deles eram muçulmanos. É evidente que os habitantes da América não entenderam a saudação. Mas os visitantes não titubearam em chamá-los de índios, criando uma grande dor de cabeça para os filólogos. Mas essa já é outra história.

Prosseguindo sobre a influência da língua árabe, digamos que muitos dos colonos portugueses que aqui aportaram vieram de alguma aldeia da região do Algarve ou de Alcântara. O barco no qual viajaram era comandado por um almirante, encarregado pelas autoridades portuguesas de estabelecer a alfândega e colocar ordem na nova terra. Em aqui chegando, nomeou um alferes e, para impor a lei, um xerife, depois de uma reunião com o alcaide numa sala, sentados sobre almofadas. Providenciaram também a construção de um albergue. O novo xerife possuía um almanaque, que o ensinava a observar o azimute e a estrela Aldebarã. Conhecia alquimia e era dono do armazém, que fornecia tecidos e alfinetes para o alfaiate, que fazia roupas com algibeiras.

Um senhor de engenho resolveu construir um alambique para a fabricação de álcool e alcatrão. Viajava montado num alazão. O local era protegido por uma fortificação onde ficava o atalaia. Para convocar os trabalhadores, mandava tocar um tambor. Possuía muitos alqueires. Mandou carpir o solo com alfanjes e o cercaram com mourões. Construíram alambrados usando alicates. Era para o gado mas só conseguiram colocar uma rês, que soltava uma baba fina. Ficaram preocupados quando viram um lobo. Mas, como não era membro de nenhuma alcatéia, tranqüilizaram-se. Alguns brancos passaram a viver com índias. Os filhos dessa união chamaram-se mamelucos.

Alguém gritou alvíssaras ao saber de alforria para os escravos, que fizeram muita algazarra e gritaram axé.

Desde então, o País passou a se interessar pelo alfabeto, pelos algarismos e pelas cifras.

Hoje, quando as pessoas se sentam à mesa para se alimentar não dispensam um prato de arroz, ou um pedaço de alcatra, que mandam buscar no açougue. A salada vem com alface, acelga, almeirão, berinjela e azeitona. De entrada, alcachofra, devidamente temperada com azeite. Para os paladares mais refinados usam-se cânfora, alcaparra, açafrão ou alcaçuz. De sobremesa, um doce onde o açúcar é um dos ingredientes. Mas quem prefere frutas pode comer damasco, ameixa ou romã. Uma garrafa de suco de tamarindo entre a refeição e a sobremesa vai bem. Para arrematar, um café e um licor de anis.

Em ferimento, usa-se algodão; para a tosse, xarope. E quando tudo corre bem diz-se aleluia, aleluia. O abade responde: amém.

Tudo bem, a história é ruinzinha. Mas alguém precisava escrevê-la.

 

BOURDOUKAN, Georges, Revista Caros Amigos. São Paulo, agosto de 1997.

Publicado em: às abril 13, 2009 em 2:37 am  Deixe um comentário  

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